Crítica – Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda
Duas décadas e uma terapia depois, o raio cai pela segunda vez no mesmo lugar. Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda retorna ao mesmo corpo do clássico de 2003, com Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan reprisando seus papéis em uma comédia que, mesmo tropeçando, ainda consegue entregar o que promete: risadas, emoção e um choque de gerações que vai além do espelho.
Em um cenário onde continuações parecem cada vez mais preguiçosas, essa sequência tem, ao menos, o mérito de saber para quem está falando, e como se conectar com esse público. Mesmo quando desequilibra pelo caminho.
A trama agora gira em torno de Anna, que cresceu, virou mãe, e está prestes a unir sua família com outra. Tudo parece estar fora de controle. Entre dilemas maternos, enteadas adolescentes e sogras inconvenientes, o caos se instala quando, mais uma vez, Tess e Anna trocam de corpos. A diferença, é que agora não são só elas que precisam lidar com isso, mas uma família inteira. E se no original era fácil para o nosso “eu” de 15 anos se identificar com uma rebeldia adolescente, que sonhava em ser guitarrista de uma banda, aqui a identificação passa a ser um pouco mais desconfortável… especialmente ao ver essa mesma adolescente agora tentando lidar com boletos, filhos e a pressão de não enlouquecer com a vida adulta.

O roteiro acerta em preservar o espírito da história original, ainda que seu primeiro ato pareça atropelado. Piadas forçadas, cenas caóticas e personagens demais brigando por espaço em tela, fazem com que a entrada seja mais turbulenta do que divertida. Mas, uma vez que as trocas acontecem, o filme encontra seu eixo e seu humor, enfim, faz sentido. A dinâmica de se colocar no lugar do outro continua sendo o coração da trama, agora com mais camadas: não apenas entre mãe e filha, mas entre madrastas, avós, enteadas, e tudo mais que cabe numa família moderna.
Lindsay Lohan brilha em seu retorno definitivo, mas é Jamie Lee Curtis quem, mais uma vez, domina a tela. A química entre as duas continua intacta e contagiante, e mesmo com um texto irregular, ambas entregam performances magnéticas, com Curtis provando, mais uma vez, que sabe comandar qualquer gênero como uma força da natureza. É divertido, sim, ver essas atrizes trocando de corpos novamente, mas mais ainda ver como a maturidade afetou suas interpretações. Se esse filme foi feito para uma nova geração, ele ainda faz questão de acenar respeitosamente para quem cresceu com o anterior.
No fim das contas, a produção não reinventa nada, mas também não precisava. Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda sabe que está mexendo com o afeto de um público nostálgico e, ao mesmo tempo, precisa conquistar os novos. Faz isso entre tropeços e excessos, mas também com sinceridade. Em um cenário saturado de sequências que só existem por obrigação contratual, essa aqui, contra todas as expectativas, realmente tem algo a dizer.

