Crítica – “O Morro dos Ventos Uivantes”
Há algo de curioso, e revelador, no fato de Emerald Fennell colocar o título “O Morro dos Ventos Uivantes” entre aspas. Segundo a própria diretora, trata-se de um gesto de respeito à linhagem de adaptações do romance de Emily Brontë. A internet, claro, preferiu teorias metalinguísticas. A verdade é bem mais simples: o filme realmente parece acontecer dentro das tais aspas. Há um distanciamento calculado, uma encenação que beira o lúdico, como se acompanhássemos uma brincadeira estética com bonecos góticos em tamanho real. O problema é que, quando se decide revisitar um clássico tão abrasivo, tão intimo, brincar pode não ser suficiente.
Na trama, Cathy (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi) seguem como os amantes fadados ao desastre. Ela, dividida entre o desejo visceral e a segurança social, ele, movido por abandono, rancor e obsessão. Fennell toma diversas liberdades, altera origens, reorganiza laços familiares, atualiza dinâmicas, mas preserva, ainda que brevemente, o esqueleto da história: dois amantes proibidos, cujo timing só não é pior do que suas habilidades de comunicação. A estética é pulsante, quase pop, embalada por figurinos chamativos e uma trilha que transforma o drama vitoriano em um tipo de performance sensorial.

E é justamente quando o filme assume essa dimensão carnal, quase lasciva, que ele funciona. Ao focar na história de duas pessoas essencialmente ruins se degradando em uma paixão explícita, cheia de culpa e desejo, há potência, há excitação, há agressividade, há um magnetismo que prende o espectador. O design de produção esculpe ambientes que parecem se entrelaçar junto aos personagens, a fotografia dá textura a cada excesso e a cada momento intimo, Robbie entrega uma Cathy birrenta, mimada, mas viva, e encontra nuances mesmo dentro da caricatura da personagem. Quando Heathcliff abraça sua crueldade, Elordi também encontra terreno mais firme para seu pacato poder de atuação.
O problema surge quando o roteiro precisa ir além do impacto imediato. “O Morro dos Ventos Uivantes” falha como adaptação, mas também não engrena ao tentar reescrever uma história clássica e aclamada. Dirigido com a notória intenção de fisgar o público feminino, o que, por si só, jamais seria um problema, o longa tropeça na falta de evolução de todos os envolvidos. Roteiro falha em contar a história, direção falha em organizar os pensamentos, e o que sobra são blocos de ótimos momentos cercados por uma redundância quase infantil. Os personagens mudam de figurino, de cenário, de parceiro, mas não crescem. São crianças mimadas encenando tragédias com gestos grandes demais e humanidade de menos.
No fim, Fennell parece mais interessada em embelezar a paixão, o amor e o ódio, do que em ser consumida por esses sentimentos. Falta entre Cathy e Heathcliff a atração genuína que justificaria tamanha devastação. Os agarrões, os beijos molhados e a excitação, estão lá. Mas envolto em pouquíssimo calor verdadeiro. Tudo é alto, tudo é intenso, e ainda assim, tudo soa artificial e fabricado. Belo de se ver, mas muito distante de se sentir.

