Crítica – GOAT
Futebol americano é o principal passatempo americano, e para muitos, um espetáculo de suor, sangue e idolatria. Portanto, é até curioso que tenha demorado tanto para que alguém fizesse um thriller de terror ambientado dentro desse universo tão singular. GOAT, produzido por Jordan Peele, surge para preencher essa lacuna, e o faz com uma atmosfera carregada e sufocante, que lembra quase um Suspiria remodelado para caber dentro dos campos de treinamento. O resultado, é sombrio, é estranho e desconfortável em todos os sentidos. E justamente por isso, realmente instigante.
A trama acompanha Cameron Cade (Tyriq Withers), um quarterback promissor que vê sua carreira ruir após uma lesão cerebral, causada por um torcedor enlouquecido. À beira do fracasso, ele recebe ajuda de seu ídolo, Isaiah White (Marlon Wayans), que lhe oferece um treinamento exclusivo em um complexo isolado no deserto. O que começa como uma redenção esportiva logo se transforma em um pesadelo psicológico. A figura de Isaiah, antes inspiradora, revela um carisma cada vez mais sombrio, conduzindo Cam a uma espiral de obsessão e paranoia.

A fotografia abusa de cores saturadas que evocam sentimentos específicos, aconchego nas cenas familiares, uma aridez opressora no deserto e uma esterilidade sufocante no campo de treinamento. É um filme que sabe brincar com luz e sombra, criando contrastes visuais que reforçam um clima de desconforto. O elenco é igualmente certeiro, Withers mergulha na vulnerabilidade e obsessão de Cam, enquanto Marlon Wayans entrega uma intensidade e presença magnética. É fascinante vê-lo preencher cada cena com uma autoridade quase hipnótica.
Mas há tropeços que não podem ser ignorados. O longa, por vezes, força a mão para parecer uma derivação estilística de Jordan Peele, talvez por levar o nome do cineasta na produção, e justamente são nesses momentos em que se perde parte da própria identidade. O thriller quer atingir o psicológico da audiência, e de certa forma até consegue, mas em alguns trechos se arrasta e soa cansativo. O final, em especial, não se preocupa em entregar muitas respostas, prefere deixar perguntas no ar. Uma escolha que de maneira geral funciona, mas que certamente dividirá opiniões.
No fim, GOAT é um pouco mais do que um simples filme de terror, é uma reflexão sobre o preço da grandeza. Não é apenas assustador, mas também soa provocativo, nos faz pensar sobre o quanto estamos dispostos a sacrificar para conquistar sucesso e idolatria. Uma produção que está longe de performar entre os melhores terrores do ano, certamente. Mas inegavelmente poderosa, GOAT mostra que o verdadeiro horror não está no monstro à espreita, mas nas obsessões que cultivamos dentro de nós.

