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Crítica – Dia D

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, poucos gêneros caminharam tão lado a lado com Steven Spielberg quanto a ficção científica. Por isso, quando Dia D foi anunciado como seu grande retorno ao universo dos extraterrestres, a expectativa era inevitável. Mas quem espera uma nova versão de E.T. ou Contatos Imediatos de Terceiro Grau talvez encontre algo, no mínimo, diferente. Spielberg não está interessado em mostrar alienígenas, mas em mostrar pessoas. E no caminho sugerir algumas ideias e reflexões. Mais especificamente, como a humanidade reagiria ao descobrir que tudo aquilo que parecia impossível era real. O resultado é um filme que faz questionar a fé, a ciência, ou ao menos aqueles que se colocam como seus grandes divulgadores e, principalmente, a nossa capacidade de lidar com algo maior do que nós mesmos.

A trama acompanha diferentes personagens ligados à divulgação de documentos secretos que comprovam décadas de contato entre governos e formas de vida extraterrestres. Entre jornalistas, denunciantes e figuras corporativas interessadas em controlar a narrativa, Dia D constrói um thriller de conspiração que pouco a pouco revela uma verdade desconfortável. Os vídeos escondidos pelo governo não chocam apenas por confirmarem aquilo que muitos acreditam existir, mas pela forma terrivelmente visceral, e naturalmente próxima da realidade, com que mostram o “estudo” dessas criaturas, repleto de brutalidade, violência e completo desdém pela vida. Curiosamente, porém, Spielberg evita transformar seres humanos em monstros unidimensionais. Seu interesse está muito mais em entender por que fazemos o que fazemos, do que simplesmente apontar culpados.

E é justamente aí que o filme encontra sua maior força. Embora funcione muito bem como blockbuster, algo que Spielberg domina como poucos cineastas vivos, Dia D utiliza sua escala para discutir crença, informação e humanidade. As más intenções de quem ridiculariza e a agonia de quem acredita ter vivido algo mas não entende o que. A presença alienígena é quase um detalhe diante das perguntas que ela provoca. O diretor prefere abrir portas em vez de oferecer respostas. Não espere ver sociedades colapsando ou revoluções globais acontecendo diante da revelação extraterrestre. O filme apenas sugere possibilidades e deixa que cada espectador complete os espaços vazios. Existe uma confiança rara na inteligência do público e uma sensibilidade admirável na forma como a narrativa coloca a vida, e não os alienígenas, no centro da discussão.

Infelizmente, essa mesma ambição também gera seus maiores problemas. Talvez o principal defeito de Dia D seja a insistência constante em equilibrar três narrativas distintas com a promessa de uma convergência grandiosa. Individualmente, todas são interessantes. Juntas, porém, acabam competindo entre si por atenção. O constante vai e vem entre personagens e situações enfraquece a imersão emocional e faz com que a duração próxima das duas horas e meia do longa, seja sentida mais do que deveria. Além disso, ainda que competente, o longa não alcança o mesmo nível de encantamento de clássicos anteriores do diretor. Em certos momentos, Spielberg parece refém do próprio legado, entregando uma obra sólida, mas um pouco aquém daquilo que sua filmografia nos acostumou a esperar.

Ainda assim, Dia D permanece como uma experiência fascinante. Um filme que não pretende explicar o desconhecido, mas nos obrigar a encará-lo. Em tempos de desinformação, cinismo e descrença coletiva, Spielberg propõe algo quase revolucionário: acreditar. Não necessariamente em extraterrestres, mas na capacidade humana de compreender, evoluir e encontrar significado diante do incompreensível. Talvez não seja seu melhor filme sobre alienígenas. Mas é certamente um dos mais maduros e reflexivos de toda a sua carreira.

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