Crítica – Supergirl
O universo compartilhado da DC nos cinemas parece muito mais livre do que muitos imaginavam. Depois de anos em que cada produção parecia existir para servir a um quebra-cabeça maior, Supergirl segue por uma direção diferente. Sim, ela pertence ao novo universo concebido por James Gunn, mas sua prioridade nunca é preparar o próximo filme ou despejar referências para agradar fãs atentos. Adaptando a excelente HQ Supergirl: Mulher do Amanhã, de Tom King, Bilquis Evely e Mat Lopes, o longa prefere contar sua própria história e, nesse processo, expandir os limites cósmicos desse universo. O resultado é um filme que entende a importância da construção de mundo, mas encontra seu verdadeiro interesse em algo muito mais íntimo: pertencimento.
A trama acompanha Kara Zor-El (Milly Alcock) durante uma jornada ao lado da jovem Ruthye (Eve Ridley), que busca vingança contra o assassino de sua família. No caminho, a heroína precisa confrontar não apenas inimigos espalhados pelos confins da galáxia, mas também a própria dor. Afinal, diferente de seu primo Clark, Kara conheceu Krypton. Conheceu seus pais, sua cultura, seu povo e assistiu conscientemente ao desaparecimento de tudo aquilo que definia quem ela era. É justamente por isso que ela nunca encontrou uma conexão verdadeira com a Terra, nem com Superman, nem com qualquer outro lugar. Supergirl entende que suas raízes não são apenas um detalhe de origem, mas a principal ferida da personagem.
E é nesse aspecto que o filme encontra sua maior força. Milly Alcock, que já havia demonstrado enorme talento em House of the Dragon, entrega o que talvez seja a versão definitiva da personagem. Sua Kara é rebelde, amarga, impulsiva e profundamente deprimida. Existe um vazio constante em seus olhos, uma sensação de deslocamento que a acompanha em cada cena. O roteiro acerta ao transformar essa fragilidade emocional em sua verdadeira vulnerabilidade. Afinal, como colocar uma kryptoniana praticamente invencível em perigo? Simples: fazendo com que sua própria personalidade a leve para situações onde seus poderes não resolvem nada. O conflito entre justiça, vingança, lar e identidade permeia toda a narrativa e dá ao filme uma densidade emocional rara dentro do gênero. É também um dos poucos filmes de super-herói recentes que permite que suas protagonistas sejam imperfeitas sem tentar suavizar suas arestas para torná-las mais agradáveis ao público.

O problema é que todo esse material merecia uma direção mais inspirada. Craig Gillespie, responsável por Cruella , ainda um de seus trabalhos mais interessantes, parece um pouco perdido diante da escala da produção. Não se trata de um filme mal dirigido, longe disso. Mas existe uma burocracia visual que impede a obra de alcançar a exuberância que seu universo sugere. O roteiro de Ana Nogueira é extremamente sólido, talvez até sólido demais, e a produção frequentemente joga seguro onde poderia arriscar. Some a isso um vilão pouco memorável e algumas conveniências narrativas descaradas, criadas apenas para mover a trama adiante, e o resultado é um filme que raramente tropeça, mas também raramente surpreende.
Ainda assim, talvez estejamos cobrando de Supergirl algo que ela nunca se propôs a ser. Sim, existem facilidades narrativas. Sim, faltam momentos realmente grandiosos. Mas será que um filme sobre a prima do Superman precisa necessariamente reinventar o gênero? Ou basta ser bem feito, emocionalmente honesto e genuinamente divertido? A resposta parece estar na própria obra. Supergirl dificilmente será lembrado como o melhor capítulo do novo DCU, mas certamente será lembrado como aquele que apresentou uma protagonista extraordinária. E, considerando o tamanho do talento de Milly Alcock e a riqueza emocional da personagem, isso já é mais do que suficiente para justificar a viagem.

