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Crítica – Eles Vão Te Matar

Eles Vão Te Matar será, é muito provavelmente, um dos filmes mais caóticos que você vai encontrar neste ano, e isso não é exatamente um elogio automático. Em um cenário onde o cinema de ação parece cada vez mais dependente de ritmo e estética para mascarar fragilidades narrativas, o longa de Kirill Sokolov abraça o excesso como proposta. O resultado é um espetáculo barulhento, estilizado e, em muitos momentos, deliberadamente descontrolado.

A história acompanha Asia (Zazie Beetz), uma ex-presidiária que aceita um misterioso emprego como governanta em um prédio luxuoso em Nova York, enquanto tenta descobrir o paradeiro de sua irmã desaparecida. O que ela encontra, no entanto, está longe de qualquer normalidade, um culto literalmente satânico que opera nas sombras do edifício, transformando o local em uma espécie de arena onde sobrevivência, violência e hierarquia social se misturam. A partir daí, o filme mergulha em uma estrutura quase gamificada, onde cada andar parece um novo nível a ser vencido e cada confronto, uma nova forma de morte, ou quase isso.

O que funciona aqui é, sem dúvida, o senso de estilo. Cheio de referências escancaradas, que vão do ritmo frenético de edição de Quentin Tarantino à ação coreografada de John Wick, o longa transforma Zazie Beetz em uma verdadeira guerreira vingadora. Há ecos claros de Kill Bill, mas também uma energia que flerta com o asianploitation e suas expressões físicas exageradas e alucinantes. A câmera se movimenta como se estivesse dentro de um videogame, os cenários parecem artificiais de propósito, e o sangue jorra com uma estilização quase cartunesca. É um filme que entende o poder da imagem e sabe como criar sequências visualmente hipnóticas.

Mas é justamente quando precisa ir além da superfície que Eles Vão Te Matar tropeça. Por mais que brinque com elementos sobrenaturais e até insinue comentários sobre classe e poder, o roteiro não sabe como sustentar essas ideias. A narrativa é fraca, previsível e, por vezes, cansativa. Um tipo de construção que faz o espectador sair da imersão justamente quando o filme mais precisa dele. Há uma clara tentativa de emular certos cacoetes contemporâneos do cinema de gênero, mas sem a mesma precisão ou identidade. O resultado é uma colagem que empolga no visual, mas que não impressiona no conteúdo.

No fim, Eles Vão Te Matar é um produto direto de um cinema que aprendeu a sobreviver através da mistura. Uma colagem frenética de referências que prefere ser “cool” a ser consistente. Não é o novo O Bebê de Rosemary, nem o novo John Wick, e certamente não é Kill Bill. Mas talvez isso nem importe tanto. Dentro do seu próprio caos, o filme encontra uma forma de existir, como em um remix estiloso, exagerado e ocasionalmente vazio, mas difícil de ignorar.

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