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Crítica: Cara-de-Barro

Cara-de-Barro talvez seja um dos exemplos mais interessantes de como a DC pode encontrar novos caminhos para seu universo cinematográfico. Ao transformar a origem de um dos vilões mais icônicos do Batman em uma história de terror corporal, a produção encontra uma maneira curiosamente eficiente de explorar o horror de perder o controle sobre o próprio corpo. Com roteiro de Mike Flanagan, o longa abraça uma proposta relativamente simples, mas bastante eficiente. E se engana quem acredita que o filme perde força por não mergulhar nas possibilidades mais extremas do terror. Existem, sim, as inevitáveis amarras de uma produção inserida em um universo compartilhado, mas, ao contrário de Coringa, Cara-de-Barro não parece ter vergonha de suas origens nos quadrinhos. Pelo contrário, encontra nelas uma identidade própria, mesmo quando se distancia da literalidade do material original.

A trama acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um homem cuja vida é destruída após um acontecimento que o deixa fisicamente desfigurado. Desesperado para recuperar a própria aparência, ele encontra na cientista Caitlyn Corr (Naomi Ackie) uma possibilidade de reconstrução que rapidamente se transforma em algo muito mais perturbador. É a partir dessa premissa que Cara-de-Barro mergulha em uma Gotham particularmente sombria, onde a violência não está apenas nas ruas, mas também na carne, nos ossos e na própria identidade de seus habitantes. O roteiro entende que não precisa recorrer a grandes explicações ou transformar a origem do personagem em uma enciclopédia de referências à DC. Sua tragédia é suficientemente humana para funcionar sozinha, mesmo quando aquilo que acontece com seu corpo deixa de ser.

E é justamente no horror físico que a produção encontra seus melhores momentos. Os efeitos de corpos se desfazendo, derretendo e se reconstruindo são impressionantes, mas o verdadeiro mérito está na maneira como a direção e a montagem utilizam essas transformações para provocar desconforto, sem depender de sustos baratos. Tom Rhys Harries entrega um Matt Hagen desesperado, vulnerável e progressivamente assustador, construindo um personagem pelo qual é possível sentir compaixão mesmo quando suas atitudes começam a ultrapassar limites morais. Naomi Ackie funciona como o coração emocional da história, enquanto Max Minghella, como o detetive John Borrelli, encontra humanidade em um papel que facilmente poderia se resumir a um obstáculo narrativo. Existe algo profundamente trágico na ideia de alguém que perde a própria aparência e, aos poucos, deixa de reconhecer quem realmente é.

Isso não significa, porém, que o filme consiga escapar completamente das convenções que tenta subverter. Alguns mafiosos e policiais corruptos parecem saídos de uma Gotham muito mais caricatural do que aquela apresentada pelo restante da produção, criando um contraste que nem sempre funciona. O antagonismo também carece de maior personalidade, especialmente diante de um protagonista tão bem construído. E, embora a abordagem de terror seja um dos maiores acertos do longa, existe a sensação de que a produção poderia ter ido ainda mais longe caso não precisasse respeitar determinados limites de um universo compartilhado. Não que isso comprometa a experiência, mas é curioso perceber como um filme disposto a deformar corpos e identidades ainda parece um pouco receoso de deformar suas próprias regras narrativas.

Ainda assim, Cara-de-Barro representa um caminho extremamente interessante para o futuro da DC nos cinemas. Existe algo revigorante em assistir a uma história de origem que não está desesperada para apresentar o próximo grande evento de uma franquia. O filme entende que Gotham pode comportar muito mais do que vigilantes mascarados e criminosos extravagantes, e que seus personagens podem protagonizar histórias de horror, tragédia e obsessão sem perder aquilo que os torna reconhecíveis. Talvez Cara-de-Barro não seja tão ousado quanto poderia, mas demonstra que ainda existe espaço para experimentar dentro de um universo tão consolidado. Afinal, se Hollywood parece ter perdido sua capacidade de surpreender com personagens de quadrinhos, talvez esteja na hora de deixar seus monstros assumirem o protagonismo.

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