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Crítica – O Fim da Rua

É difícil falar de filmes com dinossauros e ficção científica sem pensar em Steven Spielberg. O diretor redefiniu o cinema de aventura com Jurassic Park e ajudou a estabelecer uma gramática que Hollywood continua reproduzindo décadas depois. É justamente por isso que O Fim da Rua, de David Robert Mitchell, chega acompanhado de uma sensação familiar: criaturas pré-históricas, uma família em crise e um subúrbio aparentemente comum prestes a descobrir um problema muito maior do que eles poderiam imaginar. O problema é que nem sempre uma homenagem continua confortável quando perde progressivamente sua identidade e passa a parecer uma cópia. O Fim da Rua está cheio de ótimas ideias, mas aos poucos vai anulando parte delas para abraçar uma homenagem cada vez mais explícita.

A história acompanha Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), um casal à beira do divórcio que vive com os filhos em um subúrbio americano quando um misterioso fenômeno cósmico transforma completamente o cotidiano da família. Sem muita cerimônia, o bairro é transportado para um ambiente pré-histórico, onde criaturas jurássicas passam a dividir espaço com casas, carros e famílias que definitivamente não estavam preparadas para isso. E é aí que o filme se transforma em uma aventura deliciosa. A produção acerta especialmente na recriação do período e na maneira como os dinossauros ocupam aquele espaço suburbano, surgindo ao fundo, espreitando entre as casas e transformando situações banais em momentos de puro suspense. O CGI é impressionante e os ataques são criativos, brutais e frequentemente acontecem em segundo plano, enquanto a família apenas tenta sobreviver.

O melhor do longa, porém, está justamente onde ele deixa de olhar para Spielberg e olha para seus próprios personagens. Anne Hathaway e Ewan McGregor funcionam muito bem como dois adultos que já chegaram naquele estágio peculiar de um relacionamento em que até uma discussão parece cansativa demais. A química dos dois dá ao filme um inesperado componente dramático, enquanto o ambiente jurássico amplifica os conflitos que já existiam antes mesmo de qualquer dinossauro aparecer. A direção de Mitchell também demonstra grande controle visual, especialmente na construção do subúrbio e na fotografia, que reproduz com precisão uma estética de época. Quando a aventura abraça o absurdo e simplesmente coloca uma família em crise tentando fugir de predadores pré-históricos, O Fim da Rua é exatamente o tipo de blockbuster que Hollywood deveria fazer mais vezes.

O problema começa quando o roteiro precisa decidir o quanto quer explicar. Uma aventura descompromissada passa a ganhar ares de ficção científica mais complexa, a viagem no tempo cria paradoxos que são convenientemente deixados de lado e referências a Carl Sagan parecem sugerir que existe uma verdade científica por trás daquela loucura toda. O filme não precisa necessariamente explicar seu próprio fenômeno, e talvez seja melhor que não tente, mas, ao mesmo tempo, não pode criar expectativas de respostas e simplesmente abandoná-las no último ato. É ali que as conveniências ficam mais evidentes, o encerramento se acelera e algumas soluções parecem existir apenas porque o roteiro precisa chegar ao fim. Quanto mais Mitchell tenta transformar seu conto de dinossauros em algo maior, mais ele se distancia da simplicidade que fazia a aventura funcionar.

Ainda assim, O Fim da Rua é uma surpresa genuinamente divertida e um espetáculo visual que merece ser visto na maior tela possível. Talvez não seja tão original quanto parece no primeiro ato, e talvez suas homenagens a Spielberg e à ficção científica clássica sejam tão evidentes que acabam sufocando parte de sua personalidade. Mas existe algo muito prazeroso em assistir a uma família suburbana tentando sobreviver ao fim do mundo enquanto dinossauros passeiam entre casas e carros. No fim, o longa talvez não consiga escapar completamente da sombra de Jurassic Park, mas também não precisa. Se Spielberg ensinou Hollywood a fazer o público acreditar que dinossauros poderiam existir, David Robert Mitchell pelo menos nos lembra que ainda existe diversão em vê-los correndo atrás de pessoas.

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